A catarata afeta mais de 20 milhões de brasileiros e é responsável por 49% dos casos de cegueira reversível no país, segundo dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). Apesar dos números alarmantes, muitos pacientes demoram anos para buscar tratamento, principalmente por desconhecimento dos sintomas iniciais ou por acreditarem em mitos sobre a doença.
A condição caracteriza-se pela opacificação progressiva do cristalino, lente natural do olho responsável por focalizar a luz na retina. O processo ocorre principalmente devido ao envelhecimento natural, embora fatores como diabetes, uso prolongado de corticoides, tabagismo e exposição excessiva à radiação ultravioleta possam acelerar seu desenvolvimento.
Prevalência aumenta drasticamente com a idade
Estudos epidemiológicos mostram que a prevalência da catarata cresce exponencialmente após os 50 anos. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que aproximadamente 17% das pessoas entre 55 e 64 anos apresentam catarata. Esse número sobe para 47% na faixa dos 65 aos 74 anos e ultrapassa 73% após os 75 anos.
No Brasil, estima-se que sejam realizadas cerca de 600 mil cirurgias de catarata anualmente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), número ainda insuficiente para atender toda a demanda reprimida. No setor privado, o volume é similar, totalizando mais de 1,2 milhão de procedimentos por ano no país.
Sintomas evoluem de forma gradual
O desenvolvimento da catarata é tipicamente lento e progressivo, o que dificulta a percepção inicial pelos pacientes. Os oftalmologistas identificam um padrão comum na evolução dos sintomas, que geralmente seguem esta sequência:
A visão embaçada ou nebulosa é normalmente o primeiro sinal perceptível. Pacientes frequentemente descrevem a sensação como “olhar através de um vidro embaçado” ou “neblina constante”. Este sintoma tende a piorar gradualmente ao longo de meses ou anos.
A necessidade de mais luz para realizar atividades cotidianas surge em seguida. Pessoas que antes liam confortavelmente começam a precisar de iluminação mais intensa, especialmente para textos com letras pequenas. A dificuldade é mais acentuada em ambientes com baixa luminosidade.
Alterações na percepção de cores representam outro indicador importante. O cristalino opacificado tende a amarelar com o tempo, funcionando como um filtro que altera a percepção cromática. Tons de azul e roxo são particularmente afetados, parecendo desbotados ou acinzentados.
A sensibilidade aumentada à luz (fotofobia) e o aparecimento de halos ao redor de fontes luminosas são queixas comuns, especialmente problemáticas durante a condução noturna. Muitos pacientes relatam dificuldade crescente para dirigir após o pôr do sol devido ao ofuscamento causado pelos faróis dos veículos.
Diagnóstico requer avaliação especializada
O diagnóstico definitivo da catarata só pode ser feito através de exame oftalmológico completo. Durante a consulta, o especialista utiliza um biomicroscópio (lâmpada de fenda) para examinar detalhadamente as estruturas oculares e classificar o tipo e grau de opacificação do cristalino.
A classificação mais utilizada internacionalmente é o Sistema LOCS III (Lens Opacities Classification System), que categoriza a catarata em três tipos principais: nuclear (no centro do cristalino), cortical (nas bordas) e subcapsular posterior (na parte de trás). Cada tipo apresenta características e velocidade de progressão distintas.
Exames complementares como a biometria ocular são fundamentais no planejamento cirúrgico, permitindo calcular com precisão o grau da lente intraocular que substituirá o cristalino opacificado. A acuidade visual, medida através de tabelas padronizadas, documenta objetivamente o impacto da catarata na visão do paciente.
Tratamento cirúrgico é a única opção efetiva
Não existem medicamentos, colírios ou exercícios comprovadamente eficazes para reverter ou impedir a progressão da catarata. O único tratamento definitivo é a remoção cirúrgica do cristalino opacificado e sua substituição por uma lente intraocular artificial.
A técnica mais utilizada atualmente é a facoemulsificação, procedimento que utiliza ultrassom para fragmentar e aspirar o cristalino através de uma microincisão de aproximadamente 2,5 milímetros. A cirurgia dura em média 15 a 20 minutos, é realizada sob anestesia local com sedação leve, e o paciente recebe alta no mesmo dia.
As taxas de sucesso são extremamente elevadas. Estudos mostram que mais de 95% dos pacientes apresentam melhora significativa da visão após o procedimento, quando não há outras doenças oculares associadas. As complicações graves são raras, ocorrendo em menos de 1% dos casos quando realizadas por cirurgiões experientes.
Momento ideal para operar gera dúvidas
Uma das principais mudanças no manejo da catarata nas últimas décadas foi o abandono do conceito de “catarata madura”. Anteriormente, esperava-se a opacificação completa do cristalino para indicar a cirurgia, o que frequentemente resultava em limitações desnecessárias na qualidade de vida dos pacientes.
Atualmente, a indicação cirúrgica baseia-se no impacto funcional da catarata nas atividades diárias do paciente. Se a pessoa tem dificuldade para dirigir, trabalhar, ler ou realizar outras tarefas importantes devido à diminuição visual causada pela catarata, a cirurgia está indicada, independentemente do grau de opacificação.
A Sociedade Brasileira de Oftalmologia recomenda que a decisão seja individualizada, considerando as necessidades visuais específicas de cada paciente, sua profissão, estilo de vida e a presença de catarata no olho contralateral.
Avanços tecnológicos ampliam opções
O desenvolvimento de novas lentes intraoculares expandiu significativamente as possibilidades de correção visual durante a cirurgia de catarata. Além das lentes monofocais tradicionais, que proporcionam boa visão para uma distância (geralmente longe), existem hoje opções premium que podem reduzir ou eliminar a dependência de óculos.
As lentes multifocais permitem visão para longe e perto, funcionando de forma similar aos óculos multifocais. As lentes tóricas corrigem o astigmatismo, enquanto as lentes de foco estendido (EDOF) proporcionam boa visão para distâncias intermediárias, úteis para uso de computador.
A escolha da lente ideal depende de fatores como estilo de vida, expectativas do paciente, saúde ocular geral e características anatômicas do olho. Uma discussão detalhada com o oftalmologista é essencial para alinhar expectativas e fazer a melhor escolha.
Prevenção tem limitações mas é importante
Embora não seja possível prevenir completamente o desenvolvimento da catarata relacionada à idade, algumas medidas podem retardar sua progressão. Estudos epidemiológicos sugerem que a proteção contra radiação ultravioleta através do uso regular de óculos escuros com proteção UV pode reduzir o risco.
O controle adequado do diabetes é fundamental, já que níveis elevados de glicose aceleram a formação de catarata. Da mesma forma, evitar o tabagismo é importante, pois fumantes têm risco duas a três vezes maior de desenvolver catarata precocemente.
A nutrição também desempenha papel relevante. Dietas ricas em antioxidantes, especialmente vitaminas C e E, luteína e zeaxantina, encontradas em vegetais folhosos verdes e frutas cítricas, mostram associação com menor incidência de catarata em estudos observacionais.
Quando procurar o oftalmologista
A Sociedade Brasileira de Oftalmologia recomenda exames oftalmológicos regulares mesmo na ausência de sintomas: anualmente após os 60 anos ou a cada dois anos entre 40 e 60 anos. Pessoas com fatores de risco como diabetes, uso crônico de corticoides ou história familiar de catarata precoce devem ter acompanhamento mais frequente.
Sintomas como diminuição progressiva da visão, necessidade de trocar os óculos com frequência, dificuldade para dirigir à noite ou sensação de vista embaçada devem motivar consulta oftalmológica sem demora. O diagnóstico precoce permite melhor planejamento do tratamento e resultados visuais superiores.
A catarata, embora inevitável com o envelhecimento, não precisa ser aceita como limitação permanente. Com diagnóstico adequado e acesso ao tratamento cirúrgico, a grande maioria dos pacientes pode recuperar visão de qualidade e manter independência nas atividades diárias.
